Apresentamos “Festa dos ratos”, capítulo inicial de “Lagartixa sem rabo”,
o novo livro de Dora de Assis, em pré-venda pela Casa Philos.

Aniversário de cinco anos
Fim de tarde
Alguma luz sem sol.

Pedi que o tema da festa fosse
Mickey e Minnie
mas minha mãe era contra toda e qualquer coisa que fosse dos Estados Unidos e disse:

“Não vou dar dinheiro pra ladrão”

Já eu

eu estava com bolinhas adesivas brancas
grudadas no collant vermelho do
balé

chorei no espelho
cadê a minnie que eu queria ser?
as bolas iam se descol-
ando.

eu ainda não sabia esse termo na época
mas sentia
em cada um dos meus poros que
estava tosquíssimo.

Tia Solimar veio
com a solução entre as mãos (um grampeador)
seguida da voz rouca:

“Vou fixar esta merda
tá tá tá tá tá
tá tá tá preso.
Vamos pra festa que a sua amiguinha Fernanda já chegou
antes de você”.

Dentro de mim, pensei:

Tomara que ela não tenha confundido que a festa era pra
ela
eu ia odiar
achar que estava chegando na minha festa
e ela de repente não era pra mim e só eu tava ali enganada me comemorando sozinha.

Chegamos ao P de Play.

Não tinha Mickey
eu não era a Minnie
e
o bolo
era um pedaço de queijo bola
com ratinhos de laboratório brancos feitos de açúcar em cima
por dentro
invadindo os buracos
minha mãe anuncia
que o tema da festa
era

ratos

meu rabo encolhido
segurando um cocô que já era difícil de sair
ainda mais naquela hora em que
eu não poderia chorar:
O meu pai segurava uma câmera e ficava dando zoom no meu olho.

Tia Solimar vinha atrás carregando o grampeador no bolso
junto com as velas do parabéns
caso minha roupa desistisse de mim outra vez.

Fernanda, minha amiga vizinha de cabelo molhado e repartido no meio que segurava forte um livro sem embrulho
atravessou a mesa e veio sugerir
o brinquedão.

Era longe dali.

Já que os adultos ficavam em volta da comida
as crianças então poderiam ser despistadas do bolo dos ratos.

Em cima do trepa trepa ia
empilhando
uma
dor
na
outra
(com um cocô no meio)
invisíveis
enquanto meus amigos pisoteavam o chão descalços.
Era assim que se fazia vinho, mais tarde eu saberia, mas aos cinco ainda não.

Naquela época
os tempos seguintes
estavam escondidos nos observando de dentro dos túneis mais próximos.

Meu pai com a câmera acreditava estar filmando tudo
mas não tinha apertado o botão de rec
(isso também só saberíamos depois)
veio nos chamar pro show.

Na frente de todos estávamos
eu, o mágico Rod
(que se mataria em alguns anos mas que, ali já estava de alguma forma ensaiando seu fim)
e a pomba branca sem nome.

O vapor quente da sua voz ferveu na minha orelha:

“Você tem medo de pomba?”

Respondi:

“Minha mãe diz que dá doença, que pra ela pombo é igual rato com asa”.

“Mas
o tema da festa
não é

rato?”

“É”

Então tudo bem.

Ele vai e
coloca a pomba na minha cabeça
depois pede palmas pra minha coragem. Senti

um quentinho no topo: Passei a mão e
lá estava ele,
meio verde meio marrom
um
pequeno cocô.

Que me lembrou do que eu ainda não tinha feito
mas que certamente sairia doído quando eu decidisse expulsá-lo.

Diferente da pomba que foi lá e soltou um tão rápido.
Minha cabeça devia ser um lugar confortável de se estar.

Mas só por alguns segundos:
Pra pousar rapidamente, largar nela um cocô e depois voar pra longe da merda que se fez.
Mostrei a mão para o Rod que tirou da parte detrás da calça um
PANO MÁGICO

((na verdade era um lenço umedecido))

“Magia é importante mas
só pra quem acredita. Pra quem não acredita é truque”.

A turma inteira ria e aquilo

não foi nem um pouco ruim.

Eu estava sendo vista e cuidada,
senti que ali no palco tudo poderia acontecer comigo
que o mágico Rod ia surgir de qualquer vala
com um lenço umedecido
e que
estaria prontamente resolvendo qualquer questão
e que
as piores coisas no palco
na verdadeaproximavam os amigos de mim e
também aparentemente
aproximavam eles de si mesmos.
Estávamos todos ainda em fase de rascunho, mas já haviam as soluções
pras merdas que fatalmente aconteceriam
pra cada um de nós dali pra frente.
E já havia o riso.
Esse riso foi a minha glória,
até pedi pra pomba cagar de novo em mim, mas o Rod disse que ela já tinha
acabado.

Acabados
cantamos parabéns
enquanto eu colocava a mão na minha frente pra
tampar aquele queijo bola com ratos da minha visão.
Fingindo que aquele não era meu bolo.
Pelo menos, isso eu podia fazer. Mas
na hora do pedido
pedi com a força de prender todo o cocô no meu até
então pequeno porém resistente cu:
Ano que vem, por favor, quero que seja a festa da pomba.

[…]


Lagartixa sem rabo, de Dora de Assis. COMPRE JÁ O SEU!

Em “Lagartixa sem rabo”, a escritora Dora de Assis, nos presenteia com um livro “dedicado a todo e qualquer fantasma.” É mais uma das célebres obras das quais Dora se propõe a fazer. E estamos muito felizes e honrados em recebê-la de volta para publicar o seu novo livro!

As ilustrações que acompanham a prosa poética de Dora são da grandiosa pintora, gravadora e desenhista, Maria Leontina. Uma das mais importantes artistas do modernismo brasileiro.

A apresentação do livro é assinada pela multipremiada escritora Aline Bei, que nos introduz ao eu lírico de Dora:

É um caminho sem volta estar aqui, onde as perdas e os espantos se dão – antes de tudo – na linguagem que Dora constrói e linguagem é corpo, no caso deste Livro um corpo desesperado. —Aline Bei

Maria Leontina, Sem título, para o livro Lagartixa sem rabo, de Dora de Assis.
Maria Leontina, Sem título, para o livro Lagartixa sem rabo, de Dora de Assis.

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“Lagartixa sem rabo”, é o segundo livro de Dora de Assis publicado pela Philos. O primeiro, poesia rouca, recebeu chancelas Roberto Corrêa dos Santos e Ricardo Chacall. Para Raimundo Carrero, escritor e Membro da Academia Pernambucana de Letras, Dora é:

Descarnada de qualquer enfeite, sem lantejoulas ou firulas literárias, sem banlangandãs de qualquer espécie, direta ao sangue e ao coração; sem busca de favores e completamente inflamada pelo sentimento do mundo, de que nos fala Carlos Drummond; com o rigor de uma rebeldia serena. Sim, a rebeldia de Dora é serena. —Raimundo Carrero

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Dora de Assis, atriz, dramaturga, escritora e artista visual. Foto de Luiza Trindade.

Dora de Assis é atriz, dramaturga, escritora e artista visual. Autora do espetáculo “ponto ZERO” e co-autora da peça “FELICIDADE À VENDA”; formada em Artes Visuais na UERJ é estudante de licenciatura em Artes Cênicas pela Escola Superior de Artes Célia Helena. Autora do livro “poesia rouca” (Casa Philos, 2020).


Lagartixa sem rabo, de Dora de Assis. COMPRE JÁ O SEU!

ATENÇÃO: LIVRO EM PRÉ-VENDA. As entregas de Lagartixa sem rabo serão feitas após o final da pré-venda, em junho!

Quem compra na pré-venda participa do processo de investimento da obra, uma forma de apadrinhamento, por assim dizer. E após o final desse período, os livros são impressos e enviados para todos aqueles que apoiaram o projeto primeiro. Todos os colaboradores e clientes que compram o livro na pré-venda são notificados por e-mail e pelo WhatsApp quando a obra for lançada. O nosso SAC Philos encaminha os códigos de rastreamento e todos podem acompanhar a chegada dos livros até o endereço de destino.

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